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Era uma noite de quinta-feira quando parei para lanchar lá em Dadá do Mingau, como fazia costumeiramente. Um sujeito, que não lembro o nome, falava sobre algo que havia visto em Salvador. Tratava-se de uma inovação de Carlinhos Brown. Um monte de homens, cada um com seu timbau. Segundo o rapaz, eles saíam em grande quantidade e chamavam a atenção por onde passavam.
Quatro meses depois, me liga um amigo de Salvador, também me chamando a atenção para essa inovação. Ele disse: “rapaz, você precisa ver a mais nova música aqui em Salvador. A Timbalada de Carlinhos Brown. É um monte de caras tocando timbau, com uma musicalidade diferente. Eles vão tocar, venha pra cá.”
No sábado, por volta de 11h30min me dirigi à capital. Chegando lá fizemos uma boa resenha e o assunto, é claro, foi a novidade. Tudo isso regado a uma cerveja gelada e muita especulação, como requer toda novidade.
No domingo, por volta das 17 horas, fomos ao show. Logo na chegada algo me chamou a atenção: o palco. Montagem simples, sem muita parafernália. Parecia algo experimental.
Às 18h35min, os músicos começaram a tomar o palco. Nos primeiros rufares dos tambores comecei a sentir que algo diferente estava vindo. E não deu outra. O som, a batida, a célula rítmica e, é claro, a música era totalmente diferente de tudo que eu já tinha ouvido na Bahia.
Mas outras coisas me chamavam a atenção. A começar por um homem que tocava um timbau enorme, no qual ele precisava do auxílio de uma espécie de escadinha improvisada para alcançá-lo. Ele era um coroa bem animado e engraçado. Seu nome era Fialuna. Ele me impressionava com o seu canto diferenciado, que era uma espécie indígena com yorubá.
Na parte de trás, um outro coroa me despertava curiosidade por estar com o corpo pintado. Mal sabia que se tratava no mestre Pintado do Bongô, uma espécie de guru musical de Brown. Seu verdadeiro nome era Osvaldo Alves da Silva.
Na parte da frente do palco, uma moça simpática, com uma bela voz, chamada Patrícia. Junto com ela, um cara com jeito de menino e bom na voz, chamado Xexéu. Ainda como vocalista um excelente rapaz chamado Alexandre Guedes, que interpretava a inesquecível “Canto para o Mar”. Hoje ele está na Banda Motumbá.
E tinha mais. A banda contava também com um sujeito de voz rouca, que tocava trombone, chamado Augusto Conceição. Um excelente show. A platéia delirava, dançando pra um lado e para o outro. E assim foi até às 20h30min. O povo aplaudia e Carlinhos Brown agradecia. E como em todo fim de festa que se preza, fomos ao bar fazer o resumo da ópera. E o amigo Augusto logo me perguntou: “e então, Veloso, o que você achou?” E eu respondi: “rapaz, que coisa linda, maravilha (isso lembra Caetano).
E foi lindo mesmo. Até pelo diferencial. Na segunda-feira, antes de voltar, passei numa loja de discos e comprei o LP da banda. Ouvi tanto que quase furava o disco. Confesso que voltei maravilhado com a Timbalada, de quem sou fã até hoje. Esta foi a grande aparição da música baiana nos anos 90.
O segundo disco, já em CD, foi “Cada Cabeça é um Mundo”. Foi nesse trabalho que apareceu Carlos Augusto Brito, ou simplesmente Ninha. Desse eu sou suspeito pra falar. Mas quem conhece a trajetória da banda sabe que ele foi a grande voz do grupo, não desmerecendo aos outros. Mas, sobre Ninha, falarei no próximo texto.
* Edilson Veloso é professor de educação física, radialista e pesquisador de música
Fonte: Aqui Bahia
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