No momento em que se realiza a 3ª Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, não poderia ficar em “brancas nuvens” a questão social e étnica em Feira de Santana, e, no caso específico, o aprofundamento da situação de miséria a que está sendo empurrada a maioria da população, principalmente os negros ou afro descendentes, as maiores vítimas das políticas econômicas, culturais e ideológicas implementadas no País desde o aporte dos portugueses. A população negra recebeu uma pesada herança, fruto do tráfico humano, migração forçada e escravização, um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade em toda a história mundial e, neste particular, o Brasil, e mais concretamente a sua elite, desempenhou um triste papel digno de um julgamento em tribunais internacionais e que ainda está por realizar por alguma geração futura. Quando não mais precisava dos escravos como mão de obra, em função das exigências das novas forças produtivas, com a introdução da máquina a vapor, “libertou-os” (será que foi isto mesmo?) em vez de mantê-los ou incluí-los no processo produtivo, preterindo-os em favor dos trabalhadores europeus imigrantes.
Os negros, em todo o País, como se não bastassem os anos de escravidão a que foram forçados, não receberam nenhuma compensação ou reparo pelos crimes cometidos pelas elites econômicas, a burguesia agrária e comercial, e encontram-se até hoje marginalizados do processo de produção e apropriação das riquezas e do conhecimento e dos frutos do trabalho.
Fazemos esta pequena introdução para clarear da melhor forma possível uma compreensão mais realista da história de Feira de Santana. Contrariando a versão oficial, que reduz os seus atores a Domingos Barbosa de Araújo e esposa, padres, intendentes, prefeitos e toda a laia de beneficiários da máquina do Estado, Prefeitura e Câmara, existem fontes históricas que dormitam nas repartições, cartórios, coleções particulares, imprensa antiga e arquivos públicos e que estão gravadas em teses universitárias, pesquisas individuais, produções bibliográficas e insistem em se manterem bastantes vivas na ”memória oral” da população.
É bom que se diga de antemão que historiar não significa catalogar acontecimentos passados como um ajuntamento de casos sem nenhuma relação entre si e com o mundo que nos cerca. Assim podemos afirmar, sem medo de errar, que Feira de Santana está dialeticamente inserida num processo histórico de natureza social e econômica mais amplo que rompe os limites locais. A história é implacável e exige fidelidade tanto no relato dos fatos quanto na sua interpretação. Esconder, omitir, distorcer ou até mesmo inventar acontecimentos torna-se um procedimento inútil e pode desmascarar quem não respeitar este princípio simples. O exemplo da guerrilha do Araguaia está empurrando, contra a parede, o Exército, contumaz em querer ditar, ao lado dos conservadores, a forma de fazer e escrever a História no Brasil a partir da República. Os novos historiadores exigem um sentido crítico no tratamento da História, como um exercício de cidadania e comportamento ético.
A memória oral da população ainda mantém viva a figura do legendário Lucas da Feira. Entretanto determinada elite política e cultural e proprietária de bens, que quer ser dona de tudo e de todos, deter o amanhã e aprisionar o futuro, insiste em apagar ou evitar qualquer menção ao nome daquele escravo. Por que será? Supõe-se que a história de Lucas escancara o escárnio, a podridão e a arrogância dos antigos senhores que ascendiam com o tráfico e exploração da mão-de-obra arrancada dos seus lares na África. As classes dominantes sucedâneas descaracterizaram e praticamente destruíram o patrimônio cultural, artístico, histórico e arquitetônico do Município, confinando-o aos museus e catálogos de fotos, e teimam em impor culturas alienantes e símbolos de fora que têm apenas valor de mercado, e somente isto.
A cidade de Feira de Santana está sendo muito injusta com Lucas da Feira. A saga de Lucas é rica e merece ser contada e popularizada, em forma de quadrinhos, de lembrança através de monumento na atual Praça do Nordestino, de debates, de teatro, de música, de literatura de cordel, de gravuras, etc., no sentido de compreender o passado, e mais específicamente como viviam as pessoas na época da escravidão, a natureza da economia local e sua inserção na economia nacional e internacional, a forma de acumulação capitalista, etc. Lucas foi enforcado no mês de setembro, depois de perseguição, prisão e julgamento, como um bode expiatório. Sua fama atravessou fronteiras e continua a atrair estudos e teses por parte de pesquisadores. Afinal ele era considerado um herói e impôs respeito. Feira de Santana até hoje é conhecida como a “Terra de Lucas”. Lucas se transformou num mito.
O preconceito contra Lucas é também um preconceito contra os negros, contra o candomblé, contra a sua cultura e contra o acesso a uma vida mais justa e mais igualitária e contra o controle do aparelho do Estado pelos negros e pela maioria da população. Lucas, como personagem histórica, assim como o cangaceiro Lampião, mereceria uma homenagem, pelo menos o nome de uma rua, mas isto não acontece.
Enquanto isto, os negros, que constituem o grosso da maioria da população, continuam sem os benefícios da educação, da saúde, da habitação e do saneamento básico e marginalizados do processo econômico e social. Comunidades de negros remanescentes dos escravos continuam “esquecidas”, à espera de demarcação de suas terras, ou conhecidas como as mais pobres do País, a exemplo da comunidade de Morrinhos, vítimas de cobertores e vestes usadas e eternas cestas, que nem básicas são mais, irrisórias e vergonhosas, e, agora, bolsas ridículas, de tudo quanto é nome, que compõem o “marketing político” de Fernando Henrique Cardoso e seus aliados.
A população de Feira de Santana merece mais respeito e que se recoloque o Município no seu devido lugar, a começar pelo resgate de sua verdadeira história.
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