| REINVENTANDO O JOGO DA VIDA |
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| Literatura de Feira - Artigos | |||
| Seg, 03 de Maio de 2010 20:17 | |||
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O romance de Herman Hesse “O jogo das contas de vidro” valeu-lhe o Prêmio Nobel de Literatura. Recrutado ainda criança, por suas aptidões artísticas e intelectuais, Joseph Knecht, vai viver em Castália, uma sociedade quase monástica, onde se cultivam todas as ciências e artes e onde se joga o jogo dos jogos, “o jogo das contas de vidro”. Nesse, a partir de qualquer ponto, informação, idéia, motivo artístico, os jogadores vão fazendo encadeamentos pertinentes, belos e ilimitados, promovendo a interligação de saberes, demonstrando as interligações insuspeitadas da própria vida. Em seu processo de formação, Knecht vai se tornando exímio jogador até assumir o posto de Magister Ludi, a maior honraria possível em Castália, responsável pelo desenvolvimento, administração, aplicação, e até mesmo a transformação do jogo. Mas termina abandonando Castália, considerando-a elitista e separada do cotidiano das pessoas, e vai viver o jogo da realidade, em que a teia de saberes deve estar sempre a serviço da teia da vida. Herdamos, todos nós os cacos de vidro do projeto de modernidade, pedaços fascinantes e perigosos, resultados da implosão desse edifício racional, monolítico, homogêneo que nos prometia o melhor de todos os mundos. Cavados os seus alicerces, descobriu-se que simplesmente não havia alicerces e a imensa construção ruiu, deixando-nos em meio a um caos de partículas, desafiados a tecê-las em torno de um projeto senão definitivo, pelo menos melhor do que recebemos, o que não tem sido fácil. A política e a religião são dois dos principais cacos da modernidade, com suas diferenças e semelhanças. A lenta construção de uma democracia liberal, baseada na separação dos três poderes, em processos de representatividade partidárias e em sistemas de governo populares, governos “do povo, pelo povo e para o povo”, propôs belezas e fragilidades, mas não conseguiu superar as desigualdades sociais e políticas ocasionadas por um sistema econômico viciado e tendencioso. A religião não tem cumprido o propósito de ser meio de salvação, nem da humanidade nem do planeta, ajudando a acirrar as suas contradições, impedindo a unidade e conciliação entre os povos, com raríssimas e honrosas exceções. Mas o caco de vidro da utopia, que tem a cor da esperança, insiste teimosamente em nos desafiar a encontrar os fios que possam articular todos esses cacos amontoados que nos cercam. Promover encontros, acelerar processos dialógicos, estabelecer projetos éticos, firmar compromissos com valores, devem fazer parte das regras do jogo. O novo jogo que é tão velho, mas que precisa sempre ser reinventado, e cujo único nome possível seria: “o jogo dos cacos da vida”.
Feira de Santana, 30 de abril de 2010.
*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também é coordenador do Portal da Vida e faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil. CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. Fone: (71) 3266-0055. Veja esse texto também no blog www.informativo-portal.blogspot.com
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